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Pesquisas - Artigos |
Quando
a professora vira "teacher"
Reportagem: Fernanda Diniz Aleixo
email: fernandaaleixo@directnet.com.br
/ www.2ponto8.com.br
Quando quer contar um segredo para sua mãe, em vez
de cochichar, Isabela, 4 anos, fala em alto e bom tom, sem
se preocupar se há outras pessoas por perto. Para tanto,
ela não usa uma linguagem cifrada como a língua
do "p", mas, sim, outro idioma: o inglês.
Matriculada desde 1 ano e 8 meses numa escola bilíngue,
ela praticamente aprendeu a se expressar em inglês e
português ao mesmo tempo. A mãe de Isabela, a
farmacêutica Valéria de Souza, diz que seu vocabulário
e fluência algumas vezes superam os do pai, que também
estuda o idioma.
Sinal dos tempos. até poucos anos atrás, o
que os pais levavam em conta na hora de escolher uma escola
de educação infantil para os filhos eram instalações
adequadas, professores bem preparados e proposta pedagógica
alinhada com a realidade da família.
Atualmente, além dessas questões, que continuam
importantíssimas, muitas famílias, como a de
Isabela, esperam também que a pré-escola ensine
outro idioma, de preferência o inglês. Foi exatamente
esse diferencial que determinou a escolha da escola de Mariane,
3 anos, filha da professora Vera Nogueira - "Sempre acreditei
que um segundo idioma deve ser aprendido desde cedo e da maneira
mais natural possível, por isso decidi que a primeira
escola de minha filha seria bilíngue", explica
ela.
Facilidade natural. além de aproveitar a facilidade
natural das crianças para aprender outra língua,
muitos pais investem nessa idéia com a intenção
de preparar melhor os filhos para o futuro profissional. "Várias
portas se abriram para o meu marido porque ele havia estudado
num colégio americano e dominava bem o inglês.
Como pretendemos matricular nossos filhos numa instituição
assim, optamos por uma escola de idiomas, onde eles já
possam entrar em contato com outro idioma de forma corriqueira",
conta Élide Bomeisel, mãe de Rafael, 6 anos,
e de Isabele, 3.
Tudo em inglês. Numa aula de "Degustação
do Idioma", o aprendizado começa logo no primeiro
dia de aula. A criança, ali, não tem aulas de
inglês, mas em inglês. Mesmo assim, é um
sistema de ensino diferente daquele aplicado nas instituições
dirigidas às comunidades estrangeiras, nas quais só
à admitido quem já tem domínio prévio
da língua.
Nas Escolas de Idiomas que estão surgindo em grande
nêmero, principalmente em São Paulo e no Rio
de Janeiro, a maioria das crianças pertence a famílias
brasileiras. A proposta delas à incentivar os pequenos
a se comunicarem em inglês durante situações
do cotidiano, seja na hora das aulas, durante o recreio ou
nas brincadeiras.
"Como a criança ouve apenas inglês, comeúa,
num primeiro estágio, a reproduzir algumas palavras.
Em seguida, elabora frases, até que, finalmente, acaba
conversando em inglês. É o mesmo processo que
ela usou para aprender o português", explica Simoni
Ernesto da Silva de Oliveira, coordenadora pedagógica
de uma Escola de Idiomas em São José dos Campos.
Simoni lembra ainda que a metodologia de ensino geralmente
se apóia em brincadeiras, jogos e dramatizações
e que, enquanto a criança não se sentir confortável
para se expressar em inglês, tem toda a liberdade para
falar com os colegas e professores na língua materna.
Brincar para aprender. Segundo a psicóloga e neuro-psicóloga
Edivirgem Cristina da Silva, na fase da pré-escola
a criança vive em um mundo de fantasia, por isso, o
ideal à que todo o processo de aprendizagem seja realmente
feito de maneira lúdica. Mas ela faz uma ressalva:
apesar da criança ter plenas condições
de absorver uma segunda língua precocemente, os pais
precisam estar atentos para verificar se o filho não
apresenta nenhum problema no processo de desenvolvimento da
linguagem, porque isso pode ocorrer quando a criança
à exposta a outro idioma.
Edivirgem ressalta ainda que o ensino bilíngue precoce
deve restringir-se à expressão oral. No período
de alfabetização, é preciso dar um tempo
e ensinar a criança a escrever no segundo idioma somente
depois de estar com a escrita do português bem consolidada.
Identidade cultural. Esse cuidado deve ser rigorosamente observado,
"Forçar o aprendizado bilíngue precoce
pode complicar o desenvolvimento da leitura e escrita da língua
materna".
Para a psicóloga, a idade ideal para ser "apresentada"
a um segundo idioma é 10 anos, depois que a criança
já teve contato com os rudimentos da alfabetização
em português. "O ensino bilíngue na primeira
infância pode interferir na formação da
identidade cultural da criança. É na escola
que o aluno absorve os padrões de uma determinada comunidade.
Através das cantigas de roda, brincadeiras e festas,
transmite-se não só uma língua, mas também
valores culturais. Uma criança exposta a esse tipo
de educação pode acabar perdendo o contato com
a realidade brasileira", pondera ela.
Lição de casa
Antes de matricular seu filho numa Escola de Idiomas, considere
alguns aspectos:
Certifique-se de que ela já se expressa bem em português,
sem troca de letras nem outros problemas de linguagem. Se
houver dificuldades desse tipo, adie a entrada nesse tipo
de escola, até que o problema seja resolvido.
Ao visitar as escolas, confira se elas aplicam uma metodologia
baseada em atividades lúdicas e se permitem à
criança se expressar em português, no início.
O fato da família não dominar o idioma que pretende
ensinar à criança não à empecilho
para lhe dar essa oportunidade. A criança aceita com
naturalidade o fato de falar uma língua na escola e
outra em casa.
Evite comportamentos exibicionistas, pedindo ao filho que
mostre seus dotes bilíngues para as visitas. O aprendizado
deve ser encarado pela criança como uma coisa natural
e não como um diferencial.
Controle sua ansiedade e evite cobrar o desempenho da criança
no segundo idioma.
Edivirgem Cristina da Silva - Psicóloga
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